terça-feira, 14 de maio de 2013

Intervenção Político-Religiosa Nos 178 Anos Do Levante Dos Malês Na Bahia

Bahia
 

 
Por: Honerê Al-amin Oadq
 
 
 
Em Salvador – Bahia, existe um grupo político formado por militantes do movimento negro, (em sua maioria jovens e familiares das vitimas do racismo) chamado Quilombo Xis. Suas ações pautam a questão do genocídio da juventude negra e atua diretamente nos presídios baianos (denunciando o sistema que o conduz, ao mesmo tempo que viabiliza ajuda aos detentos e seus familiares). Já faz alguns anos que essa organização, através de uma de suas lideranças Hamilton Borges Walê, um grande irmão e parceiro nas lutas anti-racistas de nosso país, concretiza junto com o Sheik Abdul Hameed do Centro Cultural Islâmico da Bahia, recém homenageado pela câmara dos vereadores de Salvador, onde recebe o titulo merecido de cidadão Soteropolitano por suas expressivas contribuições ao povo baiano, uma parceria para realização de um grande evento no Centro histórico da Bahia, na sede do CEPAIA - Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americanos sobre o titulo: “O Reconhecimento da Comunidade Malê no século XIX”
Com a presença da Vice Prefeita de Salvador, Célia Sacramento (PV), dos vereadores Luis Carlos Suica (PT) e Silvio Humberto (PSB), e uma gama de militantes de diversas organizações soteropolitanas, a comunidade muçulmana pode expressar seus pontos de vista no que se refere ao levante dos malês, história que marca um período impar na luta pela liberdade, contra a escravidão e a imposição religiosa de uma forma diferenciada, trazida no inicio do século XIX por africanos muçulmanos que foram escravizados e que conduziram as principais revoltas na Bahia nesse período.
Além do resgate histórico, desde os impérios africanos e os conflitos estabelecidos, a passar pelo trafico atlântico, as primeiras revoltas, costumes e valores malês, conjuntura política baiana, chegando ao relato da revolta de 25 de janeiro de 1835, foi pautado pela comunidade a necessidade de resgatar essa história através de um Centro Cultural Malê que desse conta de resgatar uma das tantas mesquitas existentes na Bahia no século XIX, além de montar nesse mesmo espaço, um museu temático que inclua visitas nos locais onde o levante aconteceu com objetivo de resguardar essa história que, como o próprio pesquisador João José Reis, um dos maiores pesquisadores sobre o tema na atualidade, afirmou: “não ter ouvido nada sobre os malês, durante toda sua passagem no ensino fundamental e médio” demonstrando o grande risco de perder na história esse importante momento de luta e resistência africana-muçulmana em nosso país.
Além disso, ouve outra pauta apresentada correspondente à construção de um cemitério islâmico. Os muçulmanos Soteropolitanos, pedem as autoridades publicas “o direito de enterrar nossos mortos conforme tradição islâmica”, a pedir cooperação na viabilidade dessa demanda. O Quilombo Xis junto com o Centro Cultural islâmico da Bahia já vinha trazendo essa discussão na administração publica passada, e espera dessa nova gestão a possibilidade de continuar esse dialogo rumo a esse objetivo. O Centro de Divulgação do Islam Para América Latina, através do comprometimento de seu vice presidente, Ziad Ahmad Saifi, estará intermediando um dialogo junto ao Cemitério islâmico de Guarulhos para obter as condições técnicas e burocráticas para viabilizar sua construção seguindo os parâmetros determinados pelas leis brasileiras.
Penitenciaria Lemos de Brito
Com a intermediação do coletivo Quilombo Xis, estivemos no dia seguinte a palestra do CEPAIA, no pavilhão 2, junto ao projeto EntreMuros, (ação que traz atividades socioculturais aos detentos, e intermedia as relações junto a administração publica, e viabiliza auxilio aos familiares), um ato ecumênico e uma reprodução das falas relacionadas ao Levante dos malês.
A energia nos dada por essas pessoas e o respeito ao trabalho realizado pelo Quilombo Xis, faz qualquer um obter uma releitura muito mais abrangente sobre as relações que a sociedade deve ter ao sistema carcerário, que de um lado, não regenera ninguém custando fortunas aos cofres públicos, e de outro, falhando na construção de perspectivas viáveis e funcionais aos detentos que cumpriram suas sentenças para viabilizar mudanças concretas em suas vidas, evitando assim reincidências.
Além dessa intervenção, uma atitude por mim nunca vista, em meus 20 anos de militância político-racial, foi efetivada pelos detentos. Antes do inicio de nossas falas, Hamilton Borges Walê, comenta sobre um quilombo chamado Rio dos Macacos. Eles estão sendo severamente atacados pela marinha brasileira, dificultando o acesso de seus moradores, proibindo o plantio para sua subsistência, e agindo em prol da desapropriação total desses descendentes quilombolas. De fato, à centenas de anos, esses africanos se estabilizaram naquela região, através dos constantes combates a escravidão, tendo por si só o direito sobre a terra por serem gerações que ali sobrevivem sem prejudicar a natureza e seu entorno.
Dado a problemática relatado por Hamilton, os presos partem para essa atitude: “Nos somos tidos pela sociedade como o pior tipo de pessoa mais, mediante a essa necessidade de ajudar essa comunidade (quilombo Rio dos Macacos), que esta sendo atacada por essa mesma sociedade, e que por isso estão passando fome e tendo suas terras tomadas pela marinha brasileira, iremos mostrar a essa sociedade como recuperar sua humanidade através desse ato: Cada irmão doe, se possível, através de seus parentes, amigos, família, no dia de visita (sexta feira) 1 kg de alimento onde o Quilombo xis estará levando o fruto dessa campanha, diretamente ao Quilombo Rio dos Macacos, demonstrando nossa solidariedade e convocando as demais comunidades a tomarem a mesma iniciativa! Somos todos Quilombo Rio dos Macacos” .
Se lá é “o lugar mais próximo do inferno” como classifica um dos detentos, suas atitudes vem para refletirmos nosso papel nessa sociedade e até quando estaremos ignorando essa e tantas outras realidades que estão ocorrendo ao nosso redor sendo uma das causas de nossa atual situação.
Rogamos a Deus todo poderoso que possa ajuda-los a encontrar seu caminho de forma licita e funcional para trilhar uma nova vida junto a sua família e amigos. Rogamos a Deus pela comunidade Quilombo Rio dos Macacos que possa resistir e obter um resultado positivo desse processo que, antes de qualquer questão, envergonha todos aqueles que ainda tentam prejudica-los apagando sua história ao tentarem tomar suas terras.
Vinda longa o Quilombo Xis e Campanha Reaja ou será Morto, Reaja ou será Morta! Que Deus abençoe ao Centro Cultural Islâmico da Bahia pelo seu trabalho referencial a todos os muçulmanos no Brasil.
 
PAZ
 
Honerê Al-amin Oadq



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